Digestão geral e absorção Imprimir E-mail
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DIGESTÃO GERAL E ABSORÇÃO

(Prof. Newton da Cruz Rocha)

Generalidades - O trato gastrintestinal pode ser resumido como a parte do organismo necessária á ingestão dos alimentos (nutrientes), suas transformações e absorção. Por outro lado aquilo que não pode ser absorvido é eliminado com as fezes. Se observarmos o trato digestivo ele pode ser considerado como um canal que se inicia na cavidade oral e termina no orifício anal; desta forma qualquer elemento não absorvível que esteja dentro do trato digestivo, na realidade, está fora do corpo. Como exemplo podemos citar uma esfera de aço inoxidável que seja ingerida e que será expelida sem ser modificada e absorvida, pois, somente a absorção em trecho especializado do aparelho digestivo levará o produto da absorção ao chamado "meio interno".

Desta forma só podemos dizer que um produto foi absorvido ao chegar ao meio interno e ser transferido para o interior das células.

O aparelho digestivo dos mamíferos está composto de boca, esôfago, estômago, intestino delgado, intestino grosso e ânus. Além destes ainda temos as glândulas anexas: glândulas salivares, fígado e pâncreas.

O aparelho digestivo apresenta um diferente grau de especialização de acordo com a espécie animal, pois, está adaptado ao tipo de alimento e precisa ser diferente para processar a digestão e absorção. Na série animal podemos distinguir animais monogástricos e poligástricos. Os monogástricos podem ser herbívoros, onívoros e carnívoros, enquanto que os poligástricos normalmente se alimentam de vegetais, com cobertura de celulose e são denominados herbívoros. Muito embora sejam herbívoros tais animais ingerem voluntariamente substâncias do tipo concentrados (farinhas de carnes) e mesmo os bovinos podem ingerir a própria placenta no pós-parto. Há ainda as aves que podem ser insetívoras, herbívoras, onívoras, granívoras e carnívoras. O animais poligástricos podem apresentar três ou quatro estômagos (embora vários autores classifiquem os pré-estômagos como divertículos do esôfago). Nesta classificação estariam incluídos o "papo" das aves, além do rúmen, omaso e abomaso dos ruminantes.

A ingestão dos alimentos obedece a diversos fatores bioquímicos que agem sobre o sistema nervoso (hipotálamo) promovendo a fome ou a saciedade. Neste aspecto têm fundamental importância os órgãos dos sentidos (olfato, visão, gustação), além de informações mecânicas que podem partir do esôfago (deglutição) ou do próprio estômago (plenitude ou vacuidade gástrica). Outro elemento regulador pode ser o nível sangüíneo de glicose (glicemia) que informa ao hipotálamo ao circular pelo mesmo. Nos herbívoros poligástricos ou mesmo nos monogástricos o nível de glicose é baixo  45 a 55 mg/dL e como ocorre grande absorção de ácidos graxos voláteis (AGVs: como acético, propiônico e butírico) parece que para tais animais o "informante" hipotalâmico  do grau de saciedade não é a glicose e sim o nível dos AGVs.

Digestão bucal - Inicialmente o alimento é captado pelo animal de formas diferentes, de acordo com a espécie. Nas aves o formato do bico já nos dá uma informação de como se dá a tomada do alimento (preensão). A galinha pega o grão de milho com um golpe sobre o mesmo e faz um movimento de cabeça deslocando o grão para trás, em direção ao esôfago. Um colibri introduz seu longo bico dentro das flores para retirada do alimento (açucarado); um eqüídeo faz a tomada do alimento com ajuda do lábio superior que se assemelha a uma colher ou concha; os bovinos fazem a captação dos alimentos, no pasto, com ajuda da língua que funciona como uma "foice" puxando os alimentos para dentro da cavidade bucal. Em princípio o formato do bico nos dá uma idéia do tipo de alimento da ave.

O alimento permanece na cavidade bucal por um período variável que é necessário à sua trituração e eventualmente digestão parcial. O tempo leva em consideração a permanência do alimento na cavidade bucal indo desde zero até períodos longos. Assim, nas aves que ingerem o grão através de uma "bicada" o tempo será igual a zero, enquanto que os ruminantes e os eqüídeos podem realizar entre 70 e 90 movimentos mastigatórios por minuto. No caso dos cães podem ocorrer tempos diversos: um cão que tenta se alimentar de uma carne aderida a um pedaço de osso poderá fazer vários movimentos mastigatórios, porém, se o mesmo animal for estimulado por um fragmento de carne, que oferecemos e não damos, ele o pegará no ar ao jogarmos o mesmo, e o engolirá em tempo bucal igual a zero .

Mesa dentária - As mesas dentárias (superior e inferior) nem sempre se "casam" de modo perfeito, como se deseja no ser humano. Nos eqüídeos e nos bovinos (por exemplo) a mandíbula é mais estreita do que o maxilar e desta forma se as duas  mesas dentárias forrem colocadas uma sobre a outra não haverá encaixe perfeito entre as duas mesas; por tal razão é que encontramos o movimento de didução ou lateralidade. Tal movimento faz com que as duas mesas deslizem lateralmente e o material é triturado de modo diferente do ser humano. Além disso os dentes apresentam uma forma em bisel (oblíquo), independente da presença de rugosidades formadas pela dentina, esmalte e cemento.

Secreção salivar - As glândulas salivares são três pares de glândulas secretoras de um produto misto que tem finalidades mecânicas e bioquímicas na cavidade oral. O maior dos três pares está representado pela parótida e que apresenta uma secreção serosa; as outras duas (submandibulares e sublinguais) apresentam secreção mucosa. O estímulo para secreção vem do sistema nervoso vegetativo parassimpático que aumenta o volume da saliva na cavidade bucal. As parótidas são inervadas pelo IX par craniano (glossofaríngeo), enquanto que as outras duas recebem inervação do VII par craniano (facial). Há autores que reconhecem o estímulo simpático como estimulando uma secreção salivar viscosa; entretanto, existe a possibilidade de haver menor fluxo de líquidos (água) para as glândulas (por vasoconstrição) o que a tornaria mais viscosa. Além do mais seria talvez o único exemplo em que os dois sistemas não seriam antagônicos (ambos promoveriam secreção salivar); o que nos parece é que a secreção seria mais viscosa, mas, não "haveria" aumento da produção (estímulo). Há ainda glândulas mucosas "espalhadas" pela mucosa da cavidade bucal, que concorrem para a secreção mucosa; assim, a saliva contida na cavidade bucal será sempre mista.

Volume salivar - Diariamente as glândulas salivares podem secretar cerca de um a dois litros no ser humano; 110 a 180 litros nos bovinos de médio para grande porte; 10 a 20 litros nos ovinos e caprinos; 40 a 50 litros nos eqüinos; 15 litros nos suínos, e 7 a 25 mL nas aves. Os números são aproximados e a quantidade não é constante, pois, varia de acordo com a presença de alimento na cavidade bucal e com o tipo de alimento; há ainda o estímulo causado pela observação e odores dos alimentos (secreção psíquica) que precede até mesmo a colocação do alimento na cavidade oral. O pH da saliva é normalmente alcalino nos herbívoros (média = 7.3 nos suínos; 7.5 nos eqüinos; 8.55 nos ruminantes). No homem a saliva é ácida (pH = 5.45 a 6.06) e nos cães (que são originariamente carnívoros - ou onívoros se convivem com o homem) a saliva é alcalina (pH = 7.6 em média). As funções mecânicas incluem a lubrificação do trato oro-esofágico, a lubrificação e aglutinação do bolo e outras; do ponto de vista bioquímico podemos citar a presença de uma enzima amilolítica (ptialina ou a-amilase) cuja função é desdobrar o amido em maltose, maltotriose e dextrinas. Tais fenômenos são o início do desdobramento do amido e sua maior importância é no ser humano por sua característica alimentar; nos animais domésticos sua função seria limitada, pois, o tempo bucal zero não daria tempo para a ação enzimática e os alimentos celulósicos não permitiriam uma ação sobre o amido (revestidos pela "carapaça" de celulose). Há que se considerar ainda a função excretora da saliva (substâncias diversas) e até vírus (como o  da raiva). Nos bovinos há uma função salivar de natureza bioquímica, mas, não para desdobramento de substância; ocorre que durante as 24 horas do dia/noite são secretados para a saliva cerca de 2,5 quilos de bicarbonato de sódio e 1,5 quilos de fosfato de sódio. A reingestão da mesma retorna ao rúmen e ajuda a manter o pH do mesmo, sem o que, seu interior seria extremamente ácido (pela formação de ácidos graxos - AGVs); desta forma a saliva concorre para a estabilização do pH do rúmen e para a sobrevivência dos microrganismos que ali se multiplicam.

Digestão gástrica - A digestão se inicia pela presença do alimento no  estômago que desencadeia as secreções (embora haja secreção psíquica) estomacais. Como os alimentos são heterogêneos, alguns excitam mais do que outros as secreções gástricas além de contarmos com diferentes regiões da mucosa e que secretam produtos variados: HCl, muco, pepsina, gastrina, fator intrínseco (de Castle). Existe um ritmo circadiano de renovação celular que varia com o animal, e está representada pela migração das células de camadas mais profundas para o lúmen do estômago; uma experiência mostrou que a renovação em ratos pode atingir cerca de 500.000 células por minuto (auge) e que o auge da renovação ocorre por volta das 10 horas da manhã. A renovação pode não ser igual em todas as regiões, pois, na região antral a mesma ocorre a cada 2 dias e na região fúndica de 1 a 3 dias e parece estar sob influência do hormônio do crescimento (GH) e outros.

A mucosa gástrica se divide em fúndica e antral com células variadas: mucosas superficiais (muco), parietais ou oxínticas (HCL, fator de Castle) , zimogênicas ou parietais (pepsinogênio), mucosas do colo (mucosidade e gastrina) e mucosas gerais (muco).

A secreção de muco é importante pela proteção que dá à parede do estômago contra o próprio HCl e enzimas, pois, é mais viscoso do que a água em até 260 vezes (considerando a viscosidade da água = 1). Embora haja alguma controvérsia, o muco parece ser aumentado pelo estímulo vagal. Se assim não fosse, a digestão que se realiza sob efeito vagal, estaria contrariando o efeito protetor quando do início da secreção do muco.

Secreção da pepsina - Esta enzima é na realidade um conjunto de enzimas (as pepsinas) e provêm do pepsinogênio. A idéia de que são varias isozimas vem do fato de que há vários  valores de pH nos vários segmentos estomacais dos  diferentes animais (2.0 no homem; 2.0 a 3.5 em aves - e até 4.5;  4.4 a 5.5 nos eqüídeos). O pH interfere diretamente na conversão de pepsinogênio em pepsina, razão pela qual o grau de acidez guarda relação com o "tipo" de pepsina em cada animal; a função da pepsina é agir sobre as proteínas para um primeiro desdobramento das mesmas. Outras enzimas encontradas no estômago e em menor concentração e efeito estão a gelatinase e a tributirase.

É importante ressaltar o efeito de alguns medicamentos sobre a mucosa gástrica aumentando sua permeabilidade e podendo produzir gastrite e ulcerações; entre eles encontramos substâncias como o AAS (ácido acetil salicílico) e o diclofenaco.

A secreção do HCl advém da secreção (em separado) dos íons H+ e  Cl- (processo que pode ser inibido pelo medicamento omeprazol nos casos de gastrite e úlceras) pelo fato da secreção de H+ estar relacionada à função da ATPase H+/K+.

Há três substâncias envolvidas no processo de acidificação gástrica: acetil-colina (Ach) liberada pelo nervo vago; histamina que se fixa aos receptores H2  e a gastrina que é liberada para a "luz" gástrica , é absorvida para a circulação e retorna ao estômago para estimular a secreção de H+ (mecanismo exato pouco conhecido). Neste aspecto pode haver outro tipo de inibição da secreção ácida em casos de gastrite e úlcera; são os inibidores dos receptores de H2, como a cimetidina .

Fator de Castle: este produto das células parietais é uma mucoproteína e tem como finalidade promover a absorção de vitamina B12 pelo íleo; sem sua presença ocorre uma patologia denominada anemia perniciosa.

Digestão intestinal - Para que possa ocorrer a digestão intestinal é necessário que o duodeno se torne alcalino e desta forma podem ocorrer duas formas de faze-lo: primeiro o próprio sistema vagal promove estímulo pancreático para que este secrete uma solução alcalina (pouco importante); em segundo o que é mais eficaz é a produção de um hormônio duodenal denominado secretina, produzida pelas células S do duodeno. O produto apresenta 27 aminoácidos e se assemelha ao glucagon; o maior estímulo para sua produção é a entrada do "bolo" ácido, vindo do estômago, no duodeno. A secretina é absorvida e entra na corrente circulatória para chegar ao pâncreas, que então libera a produção alcalina, denominada secreção "hidrolática", rica em HCO3-. Após alcalinização o duodeno está apto a receber as secreções "digestivas" ou enzimáticas do pâncreas e ocorre a liberação de uma substância duodenal denominada pancreozimina (CCK-PZ) que é liberada pela presença de ácidos graxos e aminoácidos. Tal hormônio penetra na circulação e atinge o pâncreas para que este libere seus fermentos (enzimas).  Há três grandes grupos de enzimas digestivas no suco pancreático: amilase (para amiláceos); proteases (para proteínas) e lípases (para lipídeos).

A amilase é uma α-amilase e desdobra o amido cru ou mesmo cozido, atuando em ligações α-1.4, em pH 4.0 até 11.0 e forma maltose, maltotriose e dextrinas (em ligações α-1.6). As enzimas proteolíticas estão representadas pela tripsina e quimotripsina e provêm dos precursores tripsinogênio e quimotripsinogênio, respectivamente. Para tal conversão há necessidade de outra enzima local (de origem intestinal) denominada enteroquinase que será desdobrada e inativada por bactérias quando atingir o cólon. Outra forma de proteção é a presença de uma substância inibidora de tripsina e quimotripsina para que ela seja inativada após seus efeitos necessários; a função das enzimas proteolíticas é desdobrar proteínas até a forma de polipeptídeos e aminoácidos.

As lipases transformam os lipídeos em glicerol e ácidos graxos que podem ser absorvidos pelos vasos linfáticos das vilosidades intestinais, enquanto que os outros produtos (originários de proteínas e amido) são absorvidos por via venosa das mesmas vilosidades. O material absorvido pelos linfáticos do mesentério se dirige para a cisterna do "quilo" e daí para o ducto torácico que deságua no coração, misturando-se ao sangue, enquanto que o material absorvido pelos capilares sangüíneos segue pelos vasos do mesentério e desemboca no sistema porta penetrando no fígado.

O suco pancreático é capaz de se modificar em termos percentuais (enzimas proteolíticas, amilolíticas e lipolíticas) de acordo com a alimentação, ou seja, ele se adapta à dieta; assim, se predominar uma dieta rica em caseína ocorrerá um aumento de enzimas proteolíticas. Algumas experiências mostraram que uma dieta com 18% de caseína  apresenta o dobro de enzimas proteolíticas do que em dietas com 6% de caseína.

Secreção biliar - A secreção biliar pode ter dois trajetos distintos: nos animais com vesícula ela pode ir diretamente para o duodeno ou ser armazenada na vesícula biliar nos intervalos entre as refeições; nos animais sem vesícula, como o cavalo, ela tem fluxo constante para o duodeno (basal), mas, aumenta quando ocorre ingestão de alimentos. A bile dos animais sem vesícula é mais fluida do que aquela contida na vesícula; esta é mais xaroposa pela reabsorção de água. 

A função da bile é basicamente facilitar a digestão das gorduras, pois, ela emulsifica os lipídeos facilitando a ação das enzimas lipolíticas, oriundas do pâncreas. O esvaziamento da vesícula se dá por contração da mesma e é  promovido pela mesma CCK-PZ (duodenal) que estimula o pâncreas. A sigla CCK-PZ  significa colecistocinina-pancreozimina e se pensava que eram duas substâncias diferentes (uma para o pâncreas e outra para a vesícula biliar). A descoberta que se tratava de uma mesma substância as siglas foram anexadas. Existem substâncias capazes de aumentar a secreção biliar e/ou sua eliminação; tais substâncias foram denominadas coléréticas. Entre elas estão os próprios sais biliares e a secretina; além disso, o estímulo vagal e a ingestão de alimentos (ação post-prandial) também aumentam seu fluxo. A falta de bile prejudica a digestão de gorduras o que leva a eliminação de fezes "graxas" e descoradas uma vez que a coloração fecal depende de pigmentos biliares.

Na bile podem se formar cálculos em função da precipitação de pigmentos biliares, cálcio e colesterol, sendo que em 45% dos casos os cálculos o cálcio está sob a forma de carbonato. A composição média dos cálculos apresenta 94% de colesterol; 4% de pigmentos e 1% de cálcio.

Vômito -  os vômitos são de origem central (bulbar) ou periférica (irritação gástrica) e podem se dever a presença de toxinas na corrente circulatória que estimulam a chamada "zona do gatilho", no bulbo. Perifericamente pode ocorrer pela distensão ou irriitação gástrica, como acontece com animais como o cão que ingere capim para forçar o vômito; assim como o cão tem facilidade em vomitar, há aqueles que não vomitam (cavalo, cobaia, rato). Quando desejamos evitar os vômitos podemos utilizar substâncias como a metoclopramida, ou a clorpromazina. Entre os vomitivos encontramos a apomorfina, a morfina, os digitálicos, ou ainda simplesmente água morna com sal ou água contendo água oxigenada em solução.

Absorção - A água, os minerais, as vitaminas hidrossolúveis não necessitam desdobramento para sua absorção, porém, as proteínas, os lipídeos e os acúcares necessitam sofrer transformações até atingirem formas mais simples e "leves". As proteínas só podem ser absorvidas pela mucosa intestinal sob a forma de aminoácidos ou até tripeptídeos, porém, para entrarem na corrente circulatória precisam estar na forma de aminoácidos; os lipídeos se transformam em ácidos graxos e triglicérides  para serem absorvidos pela mucosa intestinal, porém, só passam para o vaso linfático (por exocitose) sob a forma de quilomícrons (triglicérides + colesterol + fosfolipídios + proteína), ou para os vasos sangüíneos sob a forma de monoglicerídeos; os açúcares necessitam ser desdobrados até a forma mais simples (monossacarídeos)  como glicose, galactose ou frutose para serem absorvidos pela mucosa intestinal, mas, dentro dela se transformam todos em glicose para entrarem na corrente circulatória e  então são distribuídos às células ou armazenados no fígado sob a forma de glicogênio. Este sob ação da adrenalina pode se re-converter em glicose se houver grande demanda ou, aos poucos, de acordo com o consumo da glicose pelo organismo.

SISTEMAS HOMEOSTÁTICOS 

Fome e saciedade - A denominação fome pode ser definida como a vontade de se alimentar e não especifica o tipo de alimento, ou seja, a vontade se manifesta por sensação de vacuidade gástrica (estômago vazio). Quando um indivíduo deixa de se alimentar por várias horas ocorre uma sensação de aperto no estômago, gastralgia, contrações rítmicas do estômago e uma sensação de dor (dor da fome ou câimbras da fome). Muito embora tais sensações provenham do estômago vazio (contrações tônicas) elas podem aparecer mesmo quando se promove a gastrectomia (retirada total do estômago) o que significa que a dor da fome pode ter origem psíquica.

Apetite - O termo apetite é mais empregado quando o indivíduo tem fome específica, ou seja, a procura pelo alimento é direcionada e a pessoa (ou animal) deseja um tipo de alimento ou grupo de alimentos. Um bom exemplo é a procura por alimentos diferenciados diante de uma mesa de alimentos (como ocorre hoje nos restaurantes do tipo "self-service"), onde se escolhe o que se mais deseja.

Um outro tipo de fome específica pode ser aquele que se tem quando se deseja algum alimento salgado em vez de doce ou vice-versa; talvez esta procura específica se deva à diminuição de glicose ou de cloreto de sódio nos líquidos corporais.

Saciedade - Esta sensação ocorre quando o indivíduo se encontra com o estômago cheio (plenitude gástrica) após uma refeição satisfatória ou copiosa. Em longo prazo também pode ocorrer quando o indivíduo está com suas reservas corporais normais, ou seja, há boa disponibilidade de glicídios e lipídios em seus locais de armazenamento corporal.

Podemos dizer que o controle da fome e da saciedade pode estar regulado por mecanismos centrais (hipotálamo) e periféricos (glicemia, aminoacidemia, lipemia, dilatação ou vacuidade gástrica, trânsito esofagiano de alimentos, ou seja, deglutição). Há ainda as causas psíquicas (ansiedade/depressão) e medicamentosas que podem estimular tanto quanto inibir (vários medicamentos que agem sobre os centros da fome e da saciedade), além de recursos cirúrgicos do estômago, bem como a colocação de corpos estranhos dentro do estômago para causar sensações de satisfação (presença física de balão de borracha).

Há no hipotálamo dois centros reconhecidos: o da fome e o da saciedade. O centro da fome se localiza em um núcleo denominado hipotálamo lateral enquanto que o centro da saciedade se encontra localizado nos núcleos ventro mediais do hipotálamo, entre os da fome e o terceiro ventrículo. Há indícios de que o centro da fome estaria sempre apto para induzir a fome e que o centro da saciedade o controlaria  continuadamente, liberando-o apenas quando há necessidade de se alimentar. Voltando às outras formas de estímulo podemos dizer que outras áreas do SNC podem participar da fome/saciedade através do corpo amidalóide (ou amídalas cerebrais) e do sistema límbico (comportamento) que se comunicam com o hipotálamo. Não podemos nos esquecer dos órgãos dos sentidos, tais como, olfato, paladar e visão (ligado ao corpo amidalóide, que entre outras coisas causa cegueira psíquica para escolha dos alimentos). A própria destruição da referida amídala pode levar ao aumento de consumo como a sua diminuição (dependendo da área destruída). Embora não esteja ligado ao tema em questão, a destruição da amídala também pode levar a alterações sexuais em animais.

Regulação da ingestão de alimentos - Podemos dizer que há um controle bioquímico central (origem nutricional) e um controle periférico (mecânica ou de curto prazo).

A regulação bioquímica está ligada aos níveis de glicose e outros princípios nutritivos armazenados no corpo (glicogênio hepático, utilização de glicose pelas células, nível glicêmico que circula pelo hipotálamo, nível de AGVs que circulam pelo hipotálamo em herbívoros ruminantes) e normalmente têm efeitos de longo prazo. Como a inibição em questão é regulada em grande parte pela glicemia a teoria foi denominada teoria glicostática. Uma outra teoria é a lipostática pelo fato das reservas de gordura terem efeito de longo prazo.

Alguns efeitos fisiológicos costumam ser de curto prazo pois, inibem a fome tão logo o estômago esteja cheio (o que impede se continuar ingerindo alimento além do possível pela distensão gástrica); outros efeitos semelhantes foram registrados quando o alimento desce pelo esôfago e envia informações para o SNC , da mesma forma que ocorre na distensão gástrica. Caso não existisse tal mecanismo o indivíduo só estaria saciado após a absorção de glicose suficiente para inibir o centro da fome (teoria glicostática) o que levaria horas para a informação ser percebida e indivíduo continuaria comendo por várias horas.

Mecanismo da sede - O controle da sede é outro mecanismo ligado ao hipotálamo que através dos chamados "osmorreceptores" pode avaliar o grau de hidratação ou desidratação dos líquidos corporais existentes nos sangue, no meio extracelular (intersticial) e, em última análise, dentro das células. Há normalmente um desejo "objetivo" para a ingestão de água pela secura das mucosas (boca). Entretanto, antes do organismo ter consciência da sede o sistema de preservação da água já terá sido acionado através do ADH (hormônio antidiurético). O "centro da sede" se localiza no hipotálamo em uma pequena área situada à frente do chamado núcleo supra-óptico do hipotálamo (que produz o ADH). Tal localização se denomina área pré-óptica lateral e contém células expansíveis e contráteis (como no núcleo do ADH) e podem perceber a tonicidade dos líquidos que o atravessam (osmolaridade) que pode ser baixa, alta ou normal. Quando se injeta uma solução salina hipertônica na carótida de um animal, ela vai rapidamente ao hipotálamo e, logicamente ao núcleo receptor da osmolaridade, simulando aumento da mesma. Tal efeito enganoso faz com que o animal sinta sede e imediatamente procure água para saciar a "falsa sede"; no caso real a ingestão da sede também bloqueia a mesma pela dilatação do estômago (como na fome) e absorção irá diluir os líquidos corporais retornando sua osmolaridade para o nível correto (isosmótico) e saciando a sede. O processo é tão sensível que basta uma pequena alteração (para mais) da concentração de sódio para que haja sede; a alteração pode ser da ordem de 2 mEq/L (?) ou 4 mOsm/L (?).

Não devemos esquecer que a sobrecarga tubular renal de solutos (glicose, por exemplo) também pode acarretar sede pela excessiva diurese que causa; este é o caso dos diabéticos com açúcar alto, que ao eliminarem muita água pela urina (poliúria) acabam tendo muita sede (polidipsia) e assim ocorre um círculo vicioso (urina muito, bebe muito, e vice-versa).

 
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